Ao contrário de invasões dos anos 1980 e 90, invasores avançam com dragas pesadas, barulhentas e mais destrutivas. Soma-se a isso, o tráfico de drogas, na marcha funesta sobre os Yanomami
A cortina do descaso cai, mais uma vez, sobre a história dos ianomâmis que quase sucumbiram ao seu maior inimigo nos anos 1980 e 90. Cerca de 40% morreram na primeira corrida pelo ouro, que chegou a reunir uma horda de 40 mil criminosos à época. A saga de sobrevivência, a duras penas, se repete. Antes mais artesanais, os garimpeiros hoje avançam com dragas pesadas, barulhentas e muito mais destrutivas.
— Se 40 mil garimpeiros fizeram um grande estrago à vida indígena, agora, 20 mil são capazes de exterminar a etnia. Junte-se a isso a entrada de traficantes de drogas, que vêm completar o sequestro dos indígenas — alerta a antropóloga Alcida Ramos, que, no passado, diante da ameaça do garimpo, atuou no processo de demarcação do Território Indígena Yanomami. — A aura artesanal do garimpo ilegal acabou, e há empresários e políticos poderosos que financiam insumos e máquinas.
Quando um ianomâmi morre, a aldeia se junta no Reahu para que o espírito se desprenda do mundo dos vivos e siga para o céu. As fotos de ianomâmis com fome, autorizadas por eles próprios, que passaram a circular até em redes sociais, ganham um outro significado ao se saber que este é culturalmente um momento sagrado e de resguardo. Para seguir vivendo, eles precisam esquecer os mortos. O corpo é cremado, as cinzas e os objetos pessoais enterrados. Fica o silêncio.
Nas últimas semanas, os guerreiros adotaram uma nova estratégia para escapar do fim: expor os corpos magros, a falta de assistência e a violação de direitos. É preciso: no momento, há mais de 700 indígenas em hospitais de Boa Vista, resgatados por helicópteros da FAB. Ou que chegam a pé, em busca de ajuda, após longas jornadas de mais de 200 quilômetros.
Quando se fala em extermínio, a preocupação é real. Há dados científicos para ativar o botão de alerta. Os pesquisadores Bruce Albert, antropólogo e um dos pioneiros nos estudos sobre os ianomâmis, e Estevão Senra, pesquisador do ISA e também especialista no tema, com base em dados da Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai) do ano passado, mostraram que 76% da população ianomâmi têm menos de 30 anos.
A pirâmide demográfica se explica primeiro pela alta mortalidade na primeira corrida do ouro, que teve como ápice o massacre de Haximu, com 16 mortos, em 1993, primeiro caso de genocídio com condenação no Brasil. Após as terras terem sido demarcadas nos anos 1990, a estruturação de programa de saúde melhorou a qualidade de vida e a taxa de natalidade deu um salto. Os casamentos entre integrantes de aldeias diferentes foram outro fator sociocultural importante.
A saga ianomâmi teve outra reviravolta, nos últimos dois anos, com a escalada da mortalidade infantil. Agora, em uma população jovem e debilitada, e sem tantos velhos. Além da vida em si, há risco para a vida do povo como um todo com a quebra da cadeia de ancestralidade, em que uma geração passa a outra seus fundamentos culturais.
Homoxi sob forte ameaça
Hoje, as áreas mais exploradas são aquelas que já foram garimpadas nos anos 1980 por haver conhecimento geológico prévio. Ricas em rochas abundantes em minérios, Homoxi e Surucucu são mais cobiçadas e vulneráveis. Em Homoxi, garimpeiros sequestraram, há cerca de dois anos, as pistas de pouso usadas por profissionais médicos e para abastecer os polos de saúde.
— Homoxi é uma das que correm risco de desaparecer, pois está há mais de dois anos sem atendimento de saúde — afirma a antropóloga Ana Maria Machado, que trabalha junto aos ianomâmis.
Médica sanitarista, a pesquisadora da Fiocruz Ana Lúcia Pontes integra a força-tarefa organizada pelo governo para socorrer os ianomâmis. Ela conta que os especialistas alertaram as autoridades sobre a crise. Como a logística é um obstáculo importante, Pontes explica que o ideal é reativar os polos de saúde locais.
— Houve omissão do estado e subestimação do problema — afirma. — Há lugares em que há o serviço, mas ele não está funcionando. Outros em que há uma completa desassistência.
O poderio do garimpo cresceu após a maior facção de tráfico do país ter dominado o estado de Roraima, no que passou a se chamar de “narcogarimpo”. Atualmente, há 421 pontos de garimpos mapeados dentro da terra indígena, segundo o Ministério Público Federal de Roraima. Os criminosos têm ainda outras frentes, como a extração de madeira e na pesca ilegal. O órgão critica o fato de o governo federal ter optado por operações em ciclos de cinco a 15 dias em 2021, enquanto a exigência judicial era de total remoção dos invasores. Os procuradores da República alertaram para a existência de um plano do Ibama para ocupar por seis meses toda a região até a saída definitiva do garimpo.
O relatório “Yanomami sob ataque” narra que os garimpeiros aliciam jovens indígenas e até lideranças e exploram o abandono, com ofertas de dinheiro e até bebidas alcoólicas. As mulheres são vítimas de estupros. No fim do ano passado, pouco antes da eleição, o vice-presidente da Hutukara, Dário Kopenawa, postou um vídeo que seria inimaginável há poucos anos. Em língua nativa — são seis ao todo — que ganhou legenda, um deles fez um apelo ao novo governo: “Quero continuar vivo. Quero criar meus filhos”.
Governo promete proteção
A presença do garimpo muda a dinâmica entre os subgrupos dos ianomâmis e chega a fomentar conflitos entre eles. Com as comunidades desarticuladas e o território escasso de alimentos, os indígenas ficam na mão dos garimpeiros, que não só os aliciam como também vendem a eles comidas industrializadas e de baixa qualidade. Entre os adultos, o diabetes se tornou mais comum. Entre as crianças, a desnutrição se agravou. Uma médica de Roraima passou 14 dias velando a saúde de Heixa Yanomami, que foi encontrada em uma comunidade só pele e osso. Sem autorização para falar, a profissional cedeu a fotografia da criança deitada numa rede. Ao contrário de outras centenas que não resistiram aos maus-tratos, Heixa ganhou peso e sobreviveu.
Ariel de Castro Alves, secretário nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, promete reagir com políticas públicas contínuas:
— A gestão anterior do governo federal foi explicitamente conivente e até apoiou o garimpo de forma proposital para desmantelar a assistência de saúde e a fiscalização do território — acusa.
Enquanto em Roraima as crianças ianomâmis morrem de fome, o fotógrafo e indigenista Renato Soares registrou, no ano passado, na aldeia Maturacá, no Amazonas, um lado de beleza e comunhão com a natureza dos ianomâmis que foi esquecido nos últimos dias. Durante 45 dias, ele fez muitos flagrantes de crianças com rostos espertos se divertindo em rios. Lá, o garimpo está mais distante.
— Os ianomâmi são gentis e têm uma cultura fantástica. Nos receberam bem e gostavam de ensinar sua língua. Com mais quatro anos de governo Bolsonaro, os garimpeiros chegariam a todas as aldeias — acredita o profissional, que há quase 40 anos fotografa indígenas de várias etnias e se prepara para lançar um livro.
Fonte: O GLOBO
Fotos: AFP/GLOBO





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